006 efeitos do fulgor
A perda de forma do indivíduo está, em geral, associada à dissolução da matéria do corpo num todo panteísta ou material e, consequentemente, à morte. Na História da Pintura, há (certamente entre muitos outros) dois exemplos de perda de forma que não representam a morte dos «indivíduos» retratados: penso n’ O espargo, de Manet, e nas Mulheres resplandecentes em frente da chapelaria, de Macke.
O espargo (1880), Manet
Com finalidades diversas embora, os pintores ignoraram parcialmente o traço distintivo do ser que representavam, abrindo-o, prolongando-o pelo espaço adjacente. Esta fusão parcial – que me aparece como um delicioso símbolo da ilusão das fronteiras e da posse, quando se trata de seres vivos (ou, pelo menos, orgânicos) –, esta fusão, dizia, opera-se através da cor ou, mais exactamente, da luz. E é significativo que isso aconteça deste modo, porque a luz é aquilo que possibilita todas as distinções visuais e a sua ausência (a noite, o negro) aquilo que tudo dilui no caos primordial.

Mulheres resplandecentes em frente da chapelaria (1913), August Macke
Nestes dois casos, a luz têm a função da noite, a curiosa função de unir e não de separar. E tal acontece através de um fenómeno natural, o da resplandecência. Como se no instante do fiat lux criador a luz fosse tão intensa que ocultasse, pelo menos em parte, as formas da criatura. Que as ocultasse ou, por outra, como se as mesmas formas ainda retivessem - e desse modo revelassem - algo do fulgor do acto criativo, algo da resplandecência que liberta o acto fecundo. É assim que o criador Manet abandona a tela sabaticamente, após meia dúzia de pinceladas rápidas de pura sugestão. Quanto a Macke, a resplandecência é, porventura, a de um vidro pagão dando sobre as faces urbanas de duas damas. Uma dela protege-se do reflexo, voltando a cara para trás; a outra aproxima-se do vidro com vista a evitar o excesso de luz – mas nem assim evita a dissolução do rosto.
Ou seja, a resplandecência, como excesso de luz que é, cega (ainda que apenas momentaneamente), de tal modo que corresponde exactamente ao efeito que tem a noite sobre os contornos dos objectos e dos corpos.
(Acresce dizer que as mulheres de Macke – como em tantos outros quadros seus – não possuem os pormenores do rosto. O seu objectivo não é representar pormenores ou sentimentos, mas harmonizar um todo de linhas, cores e formas. Esta abstracção faz as suas mulheres resplandecentes assemelharem-se àquelas alucinações em que copos de vidro se desfazem em luz. Talvez o sentido apurado do pintor lhe tenha fornecido a intuição de que, um dia, todas as formas desaparecerão na luz!)
Dedico este texto à Armandina Maia

Com finalidades diversas embora, os pintores ignoraram parcialmente o traço distintivo do ser que representavam, abrindo-o, prolongando-o pelo espaço adjacente. Esta fusão parcial – que me aparece como um delicioso símbolo da ilusão das fronteiras e da posse, quando se trata de seres vivos (ou, pelo menos, orgânicos) –, esta fusão, dizia, opera-se através da cor ou, mais exactamente, da luz. E é significativo que isso aconteça deste modo, porque a luz é aquilo que possibilita todas as distinções visuais e a sua ausência (a noite, o negro) aquilo que tudo dilui no caos primordial.

Mulheres resplandecentes em frente da chapelaria (1913), August Macke
Nestes dois casos, a luz têm a função da noite, a curiosa função de unir e não de separar. E tal acontece através de um fenómeno natural, o da resplandecência. Como se no instante do fiat lux criador a luz fosse tão intensa que ocultasse, pelo menos em parte, as formas da criatura. Que as ocultasse ou, por outra, como se as mesmas formas ainda retivessem - e desse modo revelassem - algo do fulgor do acto criativo, algo da resplandecência que liberta o acto fecundo. É assim que o criador Manet abandona a tela sabaticamente, após meia dúzia de pinceladas rápidas de pura sugestão. Quanto a Macke, a resplandecência é, porventura, a de um vidro pagão dando sobre as faces urbanas de duas damas. Uma dela protege-se do reflexo, voltando a cara para trás; a outra aproxima-se do vidro com vista a evitar o excesso de luz – mas nem assim evita a dissolução do rosto.
Ou seja, a resplandecência, como excesso de luz que é, cega (ainda que apenas momentaneamente), de tal modo que corresponde exactamente ao efeito que tem a noite sobre os contornos dos objectos e dos corpos.
(Acresce dizer que as mulheres de Macke – como em tantos outros quadros seus – não possuem os pormenores do rosto. O seu objectivo não é representar pormenores ou sentimentos, mas harmonizar um todo de linhas, cores e formas. Esta abstracção faz as suas mulheres resplandecentes assemelharem-se àquelas alucinações em que copos de vidro se desfazem em luz. Talvez o sentido apurado do pintor lhe tenha fornecido a intuição de que, um dia, todas as formas desaparecerão na luz!)
Dedico este texto à Armandina Maia
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